Desigualdades sociais, Alimentação e Obesidade

As proporções epidémicas da obesidade levam a considerar a obesidade como um dos principais problemas de saúde pública das sociedades atuais. Em Portugal, cerca de 32% das crianças com idades compreendidas entre 7 e 9 anos apresentam excesso de peso, sendo 11% obesas. Além disso, 24% das crianças em idade pré-escolar apresentam excesso de peso e 7% são obesas. Na idade adulta os indicadores são ainda mais preocupantes, uma vez que 50% da população tem excesso de peso, sendo 15% obesa.

A obesidade parece apresentar um forte caráter social e económico. De facto, observam-se diferenças significativas na prevalência da obesidade quer entre diferentes países de acordo com o seu desenvolvimento económico, quer entre os diferentes grupos socioeconómicos de um mesmo país, registando-se uma maior proporção de obesidade nos grupos populacionais socioeconomicamente mais desfavorecidos. Na Europa, os resultados dos estudos evidenciam que cerca de 20-25% da obesidade encontrada nos homens e cerca de 40-45% da obesidade encontrada nas mulheres pode ser atribuída às diferenças no estatuto socioeconómico.

Destaca-se assim o facto deste gradiente socioeconómico na prevalência da obesidade apresentar resultados mais consistentes para os indivíduos do sexo feminino. Também para as crianças, embora em menor escala, alguns estudos têm mostrado uma relação inversa entre a prevalência da obesidade e o estatuto socioeconómico. Um estudo norte-americano verificou que, entre 2003 e 2007, a prevalência da obesidade aumentou de 23% para 33% e a prevalência de pré-obesidade aumentou de 13% para 15% em crianças cujos pais possuíam baixo nível educacional e um baixo rendimento, não se tendo verificado durante o mesmo período aumentos significativos nas prevalências de pré-obesidade/obesidade para crianças pertencentes a um maior nível socioeconómico. Neste sentido, reconhece-se ainda, que na última década o aumento da prevalência da obesidade foi mais significativo nos grupos populacionais mais desfavorecidos.

O padrão alimentar dos grupos populacionais de menor estatuto socioeconómico parece ser um importante mediador na associação existente entre as desigualdades sociais e a obesidade.

O estatuto socioeconómico bem como o preço da alimentação são dois importantes fatores que influenciam o consumo alimentar, especialmente em indivíduos de baixo estatuto socioeconómico. Os grupos populacionais de nível socioeconómico mais baixo têm sido considerados como grupos de risco para possuírem uma alimentação inadequada.

De facto, tem sido demonstrada a existência de uma associação entre o nível socioeconómico e o consumo alimentar, estando descrito de uma forma geral que os grupos socioeconómicos mais desfavorecidos apresentam um padrão alimentar pouco consistente com as recomendações para uma alimentação saudável. Diversos estudos, sugerem que o consumo de cereais completos, carnes magras, peixe, lacticínios magros e hortofrutícolas está associado a grupos populacionais de nível socioeconómico mais elevado, enquanto que o consumo de carnes com maio teor de gordura, cereais refinados e gorduras de adição está associado a grupos socioeconomicamente mais desfavorecidos.

Por outro lado, grupos de indivíduos com elevado estatuto socioeconómico apresentam uma ingestão superior de vitaminas, minerais e fibra. Em Portugal, a informação disponível sobre o consumo alimentar de populações vulneráveis é escassa. Porém, um estudo realizado em 2004, verificou que os grupos de indivíduos com nível educacional mais elevado consomem com mais frequência fruta, hortícolas, leite e peixe e menos vinho e refrigerantes, quando comparadas com outros com menor nível educacional.

A evidência de que a prevalência da obesidade, bem como o consumo alimentar é afetado por questões socioeconómicas pode contribuir para as desigualdades existentes ao nível da saúde. O desenvolvimento de políticas/programas de intervenção eficazes na prevenção e controlo da obesidade devem ter em linha de conta a redução das desigualdades sociais. Neste contexto a modificação dos determinantes ambientais para a promoção de estilos de vida saudáveis deverá ser o objetivo central. Tornam-se necessárias ações que tenham como foco central a modificação dos determinantes ambientais, em detrimento da modificação comportamental, de modo a beneficiar particularmente os grupos populacionais mais desfavorecidos. É importante que a responsabilidade da obesidade não seja encarada apenas como uma responsabilidade individual, nomeadamente quando se pretende obter resultados nos indivíduos em situação de vulnerabilidade social, que muito particularmente podem apresentar fatores de ordem estrutural, social, organizacional e económica que impossibilitam a adoção de um estilo de vida saudável.

Texto produzido com a colaboração de Maria João Gregório

Desigualdades sociais, Alimentação e Obesidade